por BJW

Shankar, como é conhecida a artista que mora em Salvador (BA), falou com a revista do BJW, onde conta um pouco sobre sua arte que invade as ruas da capital baiana, onde ela concede realeza ao lixo, tirando a arte das galeria e levando para onde o povo está.

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Como você descreve

sua arte?

Shankar: Sempre me enxerguei como subversiva, por não corresponder aos padrões mais comerciais de arte, e, ao mesmo tempo, educativa também por estar sempre comunicando novas maneiras de se pensar o comportamento, as vestimentas e outras formas de expressão. E, pessoalmente, vejo como principal resultado do meu método a cura, já que muitas vezes recebo mensagens sobre como o contato de uma pessoa com o meu trabalho transformou a forma dela pensar de alguma forma. Isso acontece principalmente com as feridas nas quais eu toco em um ato performático.

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Quais são as mensagem simbólicas contidas no seu ato de adornar?

Shankar: Eu realmente tenho muitos adornos, não só nas roupas como nos acessórios. Eles carregam uma linguagem que se expressa na forma de religiosidade. Búzios, pedras, cobres, medalhas de santos, penas acabam indicando algumas crenças. Os materiais que eu mais uso são ossos, metais, conchas, galhos, arame, tecidos, plásticos, texturas com cascalhos, glitter ecológico e tintas para compor as performances. O uso de plásticos reutilizados, galhos e natureza morta faz alusão à simbiose dos tempos e coexistência das coisas. Eu acho que muito dessa imagética considerada original na moda pulsa exatamente desse lugar, talvez não de uma criatividade, mas sim de uma recriação.

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Quais foram suas primeiras experiências com despadronização da sua estética?

Shankar: Por volta de 2016, eu havia me mudado da minha cidade natal para outra cidade, mais distante, onde realmente não tive tantos olhos e dedos me controlando e dizendo o que fazer. Foi a partir dali que as minhas roupas, por exemplo, passaram a ser como eu imaginava, saía das minhas próprias mãos e sempre de materiais que eu encontrava descartado de maneira incorreta. Minha liberdade nessa época era sobre tudo, e vi ali a possibilidade de validar minha existência e não só me sentir uma estranha por não corresponder aos padrões estéticos e todas as caixinhas de tribos contemporâneas.

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Como é o processo de produção da sua arte e como o adorno está inserido nele?


Shankar: Esse interesse pelo adorno e pela composição corporal vêm muito das comunidades tradicionais com as quais eu tive proximidade, com as comunidades Pataxó do sul da Bahia, e, ao mesmo tempo, com alguns movimentos de dança afro e dança cigana que contam com muitos adornos. Como eu confecciono as minhas próprias peças, optei por não gerar um novo material, uso o que eu vou encontrando, ou seja, materiais que eu consigo aproveitar, que seriam descartados. Acabo retirando um material da rua, que iria virar entulho, e acabo fazendo os adornos com plásticos, metais, às vezes com galhos e cipós, materiais naturais, fazendo o uso de amarrações e tintas para desenvolver esses adornos. Os arames eu uso para fazer muita coisa, são importantes para fazer a estrutura de qualquer coisa e eu vou apenas complementando.

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Subverter o uso tradicional do adorno, da joia, é parte essencial dessa mensagem?

Shankar: Muitas vezes eu vejo um objeto que, por exemplo, tem formato para o pescoço, mas ele não é para aquele lugar. Então, eu automaticamente o transformo nessa nova peça e, assim, eu faço com vários adornos. Nas caso das roupas, eu gosto de usar uma peça que tem mais de uma função,  ela pode ser uma camisa, mas também uma saia, uma parte de baixo. Mudar as coisas de lugar faz com que elas tenham um sentido e eu percebi que as pessoas admiravam a forma como eu subvertia a ordem das coisas. O que era para usar em um lugar, eu usava em outro, um objeto que não era para estar na cabeça, estava na cabeça. Com isso, eu ganhei reconhecimento e conforto para fazer o contrário, o movimento contrário do que seria o belo, do que seria a joia perfeita. A joia que eu fiz com um material barato, chama a atenção porque estava colocado de outra forma, com seu valor resignificado.

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Quais são as suas referências e inspirações?

Shankar: Fui encontrando outros artistas que também olhavam para esses materiais da mesma forma, ressignificando o uso deles. Alguns, inclusive, dizem que é lixo colonial que a gente ressignifica e traz uma de outra maneira, enriquecendo nossos corpos marginalizados, mas sempre com muita realeza. Trazemos a potência de muitas coisas de baixo valor que são jogadas fora. Jaime Figura, com certeza, é uma das primeiras inspirações. Ele é um artista soteropolitano, uma incógnita para quem o vê, com suas vestes altamente apocalípticas e que surgem de destroços sociais. Outra inspiração é a Mulher de Roxo, outra pessoa que se tornou referência de arte e loucura em Salvador. Além deles, a Casa Monxtra, também na capital baiana, é um coletivo com mais de 10 pessoas que trabalham a desconstrução das vestimentas, performatividades e diálogos através do corpo. 

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O que é arte para você?

Shankar: Meu trabalho apresenta muitas formas de ressignificar a arte, o que é moda, o que não é arte também. Ao mesmo tempo em que a arte questiona o que ela é de fato, eu trago isso com o meu trabalho, com o que chamam de performance, que eu chamo de ato, de ritual. Acredito muito na comunicação do que eu faço, não somente através das roupas e dos adereços que eu visto, mas através do ato em si, uma performance arte na qual eu me comunico de uma forma diferente com as pessoas que estão assistindo. Uma vez eu fui a uma exposição de arte vestindo uma camisa que eu peguei na feira, era um saco de cebola que eu confeccionei como um cropped. Quando eu cheguei nessa galeria de Salvador, as pessoas me observavam muito. O que era arte naquele lugar, e estava atrás das vitrines, estava também ali, na frente deles.

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Qual o retorno que você recebe com o seu trabalho?

Shankar: Recebo, sempre no lugar de arte obviamente, algumas análises sobre o uso dos elementos e técnicas de pintura que por vezes uso. Muitas curiosidades sobre a linguagem que reproduzo em cena que transpassa imagem, movimento, voz e qualquer sentido. Eu digo que é um diálogo único de expressão. Minha alegoria no dia a dia pode deixar realmente as pessoas se questionando sobre o que de fato eu estou fazendo, porque eu não me arrumo pra atuar, subir no palco ou fazer cena.  Uso toda a alegoria em lugar de trabalho também, mas não exclusivamente para isso. O que uso numa performance eu uso pra ir na padaria, por exemplo.

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IDEALIZAÇÃO: CHRISSIE BARBAN & JOSETTE BARBAN | DIREÇÃO DE ARTE: POHL | REDAÇÃO: LEANDRO BUARQUE