Meu
universo

Por rona NEVES

As brincadeiras no morro onde nasci, Morro dos Pretos Forros, foram fundamentais para conhecer o território onde me locomovia. Foi importante também para conhecer e muito sobre meu corpo, sobre como interagia com os espaços dentro e fora dos terreiros de chão batido. Lá corríamos atrás de pipas, corríamos de cachorro raivoso, brincando de pique e escorregando morro abaixo, subindo e descendo escadas e árvores.

 

Era ali que passávamos tempo atrás de doce de São Cosme e Damião, acompanhando a Folia de Reis por becos e vielas e, nesse mesmo chão batido, em dias de chuva, surgia a lama que seria tão essencial para moldar minhas esculturas... Brinquedos que, de forma distraída, me permitia inventar histórias narradas por mim e contadas aos outros.

Por Lucas Vidotti Neves

Não havia contato direto com a arte, porque ela já estava diretamente ligada a nós, o que houve foi um olhar meu em relação a esses movimentos que eu intuitivamente levava para outros lugares, usando dessas habilidades aprendidas junto aos meus mais velhos. Um espaço que eu não entendia, mas que eu sentia que nele cabiam meus experimentos. Desenhava no chão, na terra, usando carvão, desenho em papel de pão... O meu território sempre foi muito vivo pra mim e sinto o meu corpo como uma caneta, um lápis, um pincel, que risca o espaço, redesenhando sempre de outra forma, quando ocupo um espaço até hoje.

 

Esse pertencimento para mim sempre foi algo muito forte, como se eu trouxesse toda essa estrada e sempre a contasse, com outros olhares e sentidos para continuar me expressando, já que continuo aprendendo e sempre no caminho! Essa liberdade de me descobrir, de ir experimentando sempre, é o que me move! Gosto de experimentar, sigo a minha intuição até hoje, como eu fazia na infância. Fui criado com total liberdade e tinha do meu pai um encorajamento para seguir, confiante de que os guias e orixás nos protegiam e que eu deveria sempre confiar neles. Acredito que, até mesmo pela situação em que vivíamos, essa fé era um somatório em nosso trajeto e que, de verdade, me fortalecia e fortalece até hoje.

A coragem na minha casa, a força, o ato de compartilhar, de tornar possível, de criar outros meios foi de um aprendizado que me sustenta até hoje, na vida, na arte, nos momentos que poderiam me desanimar. É o que me fortalece e que me coloca num lugar de entendimento e estrutura para continuar seguindo. Quando para a minha arte trago hoje o teatro, a escrita, a performance, a indumentária, a cenografia, a fotografia é sobre tudo isso. Sobre esse rico território e vivências que não passaram por cursos, academia, ou mesmo idas a espaços de artes que poderiam me inspirar. O que me despertou para a arte foi, realmente, as brincadeiras, o inventar, o fazer de conta, o vivenciar o meu território tendo nele as possibilidades de aprender com tudo o que ele me oferecia.

Por Lucas Vidotti Neves

Por Lucas Vidotti Neves

Os desvios do meu corpo atravessavam barreiras impostas em limites e em forma de cercas, cercas de arame farpado, ripas e outras de zinco, onde com um movimento quase coreográfico eu ia desviando como instalações no meio do caminho.  E assim, conhecia meus movimentos corporais, descobertos ainda com o equilíbrio necessário para carregar uma lata de água na cabeça ou uma balança equilibrada nos ombros. Movimentos cotidianos aprendidos com meus pais, avós, tias e primos.


O corpo para mim sempre foi essa ferramenta potente no que diz respeito à expressão. Conheci muito de mim através dessa força física e de ações cotidianas que me revelavam outras possibilidades de usá-lo, de forma potente, na qual eu me expressava inventando e reinventando outros movimentos, onde a dança se encaixava. O dançar de guias e orixás que eu presenciava na minha comunidade ou mesmo o bailado do palhaço da Folia de Reis.

A convivência com os mais velhos, os personagens respeitadíssimos em minha comunidade me traziam a oralidade em suas narrativas que eu atento ouvia com total atenção. As lendas que se contavam sobre personagens que povoavam o imaginário coletivo daquelas pessoas me inspiravam a usar minha imaginação, o que me levava mais uma vez a reproduzir a história, usar o corpo para expressar a forma que seria aquela personagem ou a roupa que ela vestiria, fazendo uso do teatro para recontar histórias.

A dificuldade vivida pela minha família e outras mais naquele local eu só fui entender anos depois, pois tudo o que poderia nos enfraquecer, nos fortalecia. Meus pais e avós sempre criaram meios de sobreviver e, inventando as próprias ferramentas para existir, se divertiam e criavam outras possibilidades, outros meios de tornar possível. Meus brinquedos e das minhas irmãs e primos eram feitos pelo meu bisavô. Meu pai, na falta de energia, contava histórias inventadas com a sombra das mãos, refletida pela luz da vela na parede. Minha avó e minha mãe costuravam, bordavam, faziam crochê, produzindo assim nossas roupas do dia a dia e roupas para sair.

Por Lucas Vidotti Neves

Meus mestres eram, sem dúvida, esses mais velhos, verdadeiros griôs a nos contar histórias antigas o que também despertava em mim a vontade de saber mais e mais sobre a história do meu local e sobre meus ancestrais. Foi assim que descobri, através de minha avó, o que a minha tataravó Idalina adorava fazer quando criança: bonecas de folhas para ela mesma brincar. Nessa construção de história própria fui tecendo uma narrativa para criar meu universo, onde eu pudesse retratar fatos e coisas do meu cotidiano através da arte.

 

Posso dizer que a Folia de Reis da minha comunidade, existente até hoje, foi para mim uma junção de manifestações visuais que me impactaram durante toda a minha infância com sua musicalidade, poética, roupas, música e a performance dos palhaços com suas máscaras presentes em muitas de minhas pinturas e produções. As festas de eres, promovidas em alguns centros de umbanda lá no morro, também eram muito esperadas e celebradas por mim, meus amigos e primos. Os coloridos das bandeirinhas, os doces espalhados pelo chão de barro após um dia inteiro de festa, brinquedos de plástico com suas cores diversas e a presença da maioria dos moradores de lá.

 

Elementos presentes também nas festas juninas promovidas no terreirão por meu padrinho Gertes. Um quintal de chão batido, onde brincávamos de ciranda junto com adultos cantando e fazendo a coreografia de cada cantiga. Tudo isso me fez olhar para o próprio quintal para entender o que vai além e, assim, poder me locomover e criar outras possibilidades de pensar e explorar outros territórios da mesma forma. O olhar que procuro trazer para a minha arte é uma perspectiva de contar a minha construção no fazer artístico, que nasce das minhas vivências e minhas invenções elaboradas com a mesma liberdade de contar uma história.

 

Como forma de trazer para o real um universo inventado, por exemplo, escrevo uma peça de teatro e penso além da história, como seriam as roupas, cenários e corpo dessas personagens. Para mim, criar é ter a percepção desse momento presente em que crio, acionar o passado, que não necessariamente é muito distante, pode ser ontem, por exemplo, e projetar a finalização desse processo no futuro, não necessariamente amanhã. É sobre tornar possível, realizar e existir enquanto arte. Ela me faz raciocinar, ficar ligado, me conectar e isso realmente me deixa vivo!

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IDEALIZAÇÃO: CHRISSIE BARBAN & JOSETTE BARBAN | DIREÇÃO DE ARTE: POHL | REDAÇÃO: LEANDRO BUARQUE