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PARAMENTAS 

VIVAS

Quem Cavalga Quem?

por CLAUDIA SCHAPIRA, BIANCA TURNER E BÁRBARA MALAVOGLIA 

Três mulheres, entrelaçando pensamentos, tecendo visões e sensibilidades.
Nós que fazemos corpo, veste, imagem, nos reunimos aqui ao redor das paramentas e sua força cavalgada.

Paramentas, Claudia Schapira

 

Uma das minhas memórias mais fortes da infância foi quando minha mãe vestiu a mim e a minha irmã com a mesma roupa. Pequena, argumentei que não gostava de me vestir igual a ninguém. Lembro da sensação de me olhar no espelho e não me reconhecer naqueles trajes e de isso ser vital! Parece exagero, mas foi assim que comecei a perceber o poder do que hoje eu chamo de “paramentas”.
Sobrepor “peles” ao meu corpocasa, minha primeira veste, sempre teve um tom sagrado, como se o vestir-se fosse uma extensão do que corre por dentro, daquilo que é corpo e é também subjetividade, como uma expressão da alma. Uma possibilidade de consagrar o invisível, materializando sentimentos, estados, pontos de vista, pensamentos. Se vestir como forma de
protesto, como instrumento político de “fala”, alinhando ética e estética.
“Memórias Impressas” foi um espetáculo criado em 2015, e apresentado no CCSP, para deflagrar essa voz das roupas, tornando-as protagonistas de uma narrativa capaz de revelar diversas humanidades. A mesma lógica eu segui para pensar as roupas em ‘Matakala’.

‘Matakala’ é um vídeo-dança que representa e reverencia as faces da Deusa. Ao escolhermos os elementos que, no corpo, ritualizam e evocam junto com a dança as presenças dessas faces, abrimos o diálogo com o que cada adereço iria propor por si só, a partir de seu formato, seu som,
seu material de origem e sua trajetória. Assim como a vestuária de um Orixá, que se faz tão essencial em terreiros de Candomblé, nos deparamos com a força de cada elemento, sendo um adorno, um tecido, ou uma pintura, como uma possível representatividade de uma força da natureza, e deixamos o corpo dialogar livremente com a proposição daquele elemento.
Evocar a função sagrada da indumentária que revela, protege, consagra, elucida, presentifica o ser. Se paramentar para viver, exercer, expressar, argumentar, contrapor, para pontuar ritos de passagem, para celebrar. A indumentária como instrumento de autorrepresentação.

​​Incorporar, Bárbara Malavoglia

Tudo é vivo. Pedras, ossos, panos, metais, toda matéria carrega um pulso, memórias, desejos. Se pudermos escutar o que elas sussurram com suas presenças, temos a chance de ser
atravessados por elas. Ao fazer delas nosso próprio corpo, a troca se intensifica. Vestir é uma tecnologia de acesso, um portal.
No artigo "Perspectivismo e Multinaturalismo na América Indígena", o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro usa o termo “feitura do corpo” para nomear o processo de alguns povos de particularizar um corpo ainda muito genérico, o que acontece especialmente na decoração ritual, cujos elementos “fazem” o corpo.
“Vestir uma roupa máscara é menos ocultar uma essência humana sob uma aparência animal que ativar os poderes de um corpo outro. As roupas animais que os xamãs utilizam para se
deslocar pelo cosmos não são fantasias, mas instrumentos: elas se aparentam aos equipamentos de mergulho ou aos trajes espaciais, não às máscaras de carnaval. O que se pretende ao vestir um
escafandro é poder funcionar como um peixe, respirando sob a água, e não se esconder sob uma
forma estranha.” (CASTRO, p.387)

Viveiros conta de um contexto específico, mas podemos podemos beber dessa sabedoria
como inspiração. Escolhendo o que vestir, honrando esse encontro ao deixar o corpo permeável
para ser movido, considerando as paramentas como vivas, com agência própria.
Existimos de um jeito diferente com uma pedra das profundezas tocando o coração, ouvindo
o tilintar de um brinco sussurrar no ouvido, ou com a cintura firmemente apertada por uma corda.
Temos a possibilidade de ser nutridos por aquilo com que fazemos nossos corpos, tanto para uma
performance quanto para o reencantamento da vida cotidiana. É um ato de resistência e vitalidade
viver os poderes do corpo, e do encontro com outros corpos, outras matérias, imantadas com suas
próprias forças e devires que, ao vestir, incorporamos.

Referências
Link do espetáculo “Memórias Impressas”: https://vimeo.com/138270073)
BAUMAN, Zygmunt. “Vida Líquida”- 2005
CASTRO, Eduardo Viveiros de. “A Inconstância da Alma Selvagem” - 2013

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IDEALIZAÇÃO: CHRISSIE BARBAN & JOSETTE BARBAN