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O brilho que
seduz

por chrissie barban

Como joalheira curiosa, costumo dizer que eu cavo, na terra existente debaixo dos concretos, a história oculta dos ornamentos terrenos. Hoje, vou falar sobre o ouro, o dourado duradouro, o místico metal que gera ambição e pode cegar muitos homens.

 

O brilho sedutor do ouro cativa a imaginação de pessoas desde o princípio da consciência humana, cintilantes  pepitas já  despertavam o desejo dos moradores paleolíticos há mais de 40 mil anos. O ouro, que não oxida, nem mancha ou deteriora era considerado o metal dos deuses, está presente em praticamente todas as culturas em forma de  joias e objetos que expressavam, acima de tudo, a imortalidade.  Puro e incorruptível, o metal simboliza o duradouro, o eterno.

 

O espiritual metal está envolvido por uma aura de poder místico. Ao mesmo tempo em que sugere pureza quando utilizados nos muitos objetos do Vaticano, para o budistas, o brilho do precioso metal é a demonstração da onipotência sobrenatural. Na era pré-colombiana, joias eram construídas e levadas junto ao corpo para representar o voo do xamã em direção ao reino do céu. O que para os incas representava o suor do sol, para os hindus era a materialização física da inteligência divina. Já os egípcios associaram o ouro ao poder vivificador do sol, com aparição e desaparição diária, como símbolo do verdadeiro renascimento.

A maior parte do ouro dos faraós era extraído de enormes depósitos de quartzo ricos nesse minério, nos desertos que ladeavam o rio Nilo. Dentre os depósitos, um dos mais impressionantes era aquele localizado na Núbia, que se estendia para o sul, onde hoje fica o Sudão. O nome da região derivava de "nuü", palavra egípcia para ouro. Os depósitos egípcios são as mais antigas minas de ouro do mundo, com cerca de 5 mil anos. Dos desertos foram arrancados cerca de 700 mil quilos de ouro, fazendo do Egito uma das mais ricas e poderosas nações da Terra.

 

No coração da fonte de ouro do mundo antigo, técnicas egípcias impressionantes e sofisticadas transformavam o ouro cuja maleabilidade foi muito explorada pelos ourives, que o transformavam em finos fios e chapas. Foram eles que dominaram também a arte de refinar o ouro e a fazer as suas próprias ligas, que traziam resistências e diferentes tonalidades. Dentre as mais impressionantes era a aparente capacidade dos ourives de aumentar a quantidade de ouro, podendo fazer crescer o seu volume sem que ele perdesse a cor. Eles podiam produzir uma liga metálica amarela brilhante sem usar nada além de cobre e zinco.

Tal como acontecia com a maioria das artes antigas, as técnicas dos ourives eram protegidas zelosamente como segredos de ofício. No entanto, vários manuais de instrução sobreviveram, sendo um deles um papiro produzido no século III da nossa era e hoje conservado na universidade de Leiden, na Holanda. Ele apresenta 90 receitas para várias ligas coloridas, inclusive ouro e prata artificiais. 

Qualquer pessoa que aprendesse a criar ouro, assumiria certamente o atributo de divindade, tornando-se sábio, poderoso e, possivelmente, imortal.  Na cidade de Alexandria, rainha do mediterrâneo e centro cultural e intelectual dos gregos,  os egípcios e judeus uniram a visão filosófica dos gregos à metalurgia egípcia. Deste casamento nasce a alquimia, tornando joalheiros em também sacerdotes dos templos.  Os alquimistas, filósofos e ourives pertenciam à ciência do grande arcano - assunto para um próximo texto.

 

Ao longo de sua história, o ouro carrega uma longa trilha de sangue e aflições motivadas pelo desejo, pela ambição daqueles que cederam ao seu fascínio. Hoje, a história continua seu percurso por caminhos um pouco diferentes, mas com as mesmas consequências. O ouro somos nós, nossa existência terrestre, e não o material que posicionamos sobre o corpo. Esse corpo adornado não precisa ser celebrado às custas de vidas e da destruição que vemos mesmo em garimpos legais, onde a dor e a morte ainda se fazem presentes.

 

Em pleno século 21, sobretudo por meio da joalheria contemporânea, acredito ser possível manifestar e celebrar nossa existência sem que seja necessário o sacrifício de vidas humanas e a destruição do natreza. O fascínio do ouro, seu desejo e valor místico, advêm da sua raridade e impacto na civilização humana e esse significado pode, por meio das mãos dos artistas, ser atribuído a qualquer material. Essa é a riqueza gerada pelo trabalho joalheiro que pode impactar a forma como as pessoas consomem a joia, uma joia arte, a joia livre.

Foto 1: sol de ouro da cidade medieval de Munique - Museu Stadtmuseum de Munique (Alemanha)

Foto 2 : BAINES, J. Deuses, templos e faraós: Atlas cultural do Antigo Egito. Ed. Folio (2008)

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IDEALIZAÇÃO: CHRISSIE BARBAN & JOSETTE BARBAN | DIREÇÃO DE ARTE: POHL | REDAÇÃO: LEANDRO BUARQUE