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por BJW

Carlos Lacerda, de 54 anos, é um ourives das antigas, como se costuma dizer. Porém, além da habilidade forjada dia a dia na profissão que exerce desde os 19, está a visão aberta, agregadora e potencializadora da joalheria contemporânea. Profissional habilidoso como ele têm poucos, visionário, então, uma raridade como as peças que ele produz.

 

O ourives falou com a revista do BJW, onde conta um pouco sobre sua trajetória e gosto pela joalheria contemporânea.

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Mas essa discriminação ainda existe,
não é?


Carlos: Hoje o conceito de joia mudou muito. O valor dos metais preciosos está muito alto, houve uma adequação, as pessoas precisaram se adaptar. Antigamente era ouro, prata e platina. E a platina, o material mais nobre e difícil de se trabalhar, era reservada somente para os grandes ourives, que ganhavam melhor e tinha mais reconhecimento. Mas o preconceito ainda existe sim, quase ninguém quer trabalhar com latão. Pra mim, o latão ou qualquer metal é nobre, porque é dali que a gente tira o sustento. Se hoje em dia a pessoa não pode usar uma peça feita de ouro, por conta do preço, ela pode usar uma peça de latão. Qualquer metal bem trabalhado pode ser bonito.

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Olhando para os seus colegas de profissão desde aquela época, você vê essa profissão diminuindo nesses últimos anos?

O maquinário evoluiu muito e, a gente que é ourives tradicional, que realiza quase todas as técnicas manualmente, foi perdendo espaço. As impressoras 3D, por exemplo, geraram um impacto enorme. O trabalho do modelista, do designer, que antes era manual, agora pode ser feito por um webdesigner que saiba mexer no computador e mandar o desenho para a fundição.

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Você tem amigos que mudaram de profissão, colegas que trabalhavam com você?

Carlos: Vários amigos mudaram. Eu mesmo mudei nesses 35 anos... eu já saí. Mas é como se diz, você sai da ourivesaria, mas ela não sai de você. Porque isso é uma paixão. Mas quando saí, foi questão de meses, não consegui nem ficar um ano longe.

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Como foi essa nova fase da sua carreira?

Carlos: Eu errei muito, estraguei muita peça, mas tive a oportunidade de aprender. Muitas vezes o seu Tomita me mandava desmanchar as peças por detalhes. Mas na nossa profissão, quem manda é o cliente, a peça precisa sair como o cliente quer e não como a gente quer. Com ele trabalhei quase 30 anos, até o ano passado quando ele faleceu.

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Como você virou ourives, como entrou para esse universo e aprendeu a fazer joias?

Carlos:  Aos meus 19 anos, eu trabalhava como entregador para uma loja de materiais elétricos. Foi nessa época que meu primo, que era ourives em São Paulo (SP), me chamou para ser assistente dele na oficina em que trabalhava na região central da capital. Comecei limpando bancada e observando os outros ourives fazendo as peças. Como eu sou curioso, perguntava sobre tudo o que via e, de tanto insistir, começaram a me ensinar.

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O que você sentiu ao entrar nessa oficina pela primeira vez, você se identificou com a joia?

Carlos: Senti algo diferente, eu jamais imaginaria que estaria dentro de uma oficina, vendo uma joia sendo criada. Conforme eu fui me envolvendo e aprendendo, vendo os ourives soldando no fogo, aquilo me fascinou. Eu não queria ficar só olhando, fui me metendo, queria melhorar, queria ser alguma coisa ali. Aí recebi meu primeiro anel para limar, as primeiras peças de prata... latão não se usava em joalheria naquela e época. O cara que trabalhava com latão antigamente era discriminado.

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O que é joia pra você?

Carlos: Tudo é uma joia. A partir do momento que você se identifica com o ornamento, é uma joia. Depende da atitude de quem vai usar essa peça.

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Voltando um pouco para sua trajetória, como você se desenvolveu ao longo dos anos até chegar à sua oficina própria?

Carlos:  Eu fiquei na primeira oficina, no bairro da Aclimação, até 1986. Quando eu saí de lá, com cerca de 25 anos de idade, meu primo já tinha deixado o trabalho. Esse ramo estava muito aquecido e era relativamente fácil mudar de uma oficina para outra ou migrar para o garimpo que acontecia no norte do país. Com a saída dele, eu pude ajudar o proprietário da oficina, que precisava de apoio para construir as peças dos clientes, e, com isso, aprendi muito. Naquela época era um trabalho que se exercia por indicação, os clientes que gostavam indicavam você para outros conhecidos que queriam fazer alguma peça. Não havia grandes lojas de joias, você desenvolvia diretamente com os clientes, um ourives de família como se diz. Ainda hoje é um trabalho de confiança, é um mercado fechado e, para ficar nele, precisa ser bom, honesto, ético e fiel. Lógico que há muitos paraquedistas, que cobram mais barato, tiram seu cliente, mas entregam um trabalho de baixa qualidade.

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O que te fazia voltar?


Carlos: A gente não sabia se ia dar certo. Só me considerei profissional quando comecei a fazer as primeiras peças, quando comecei a ganhar o meu dinheiro. É nessa hora que você fala, caramba, eu consigo fazer, eu evoluí e posso viver disso.

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E quando isso aconteceu, quando você se sentiu dessa maneira?

Carlos:  Na década de 80, havia um intenso movimento de concentração dessa atividade no centro da capital. O dono dessa oficina onde comecei mudou para lá na busca por novos clientes e muitos amigos o colocaram em contato com outros profissionais, como lapidadores que precisavam de pessoas para confeccionar as peças para suas gemas. Umas dessas pessoas foi o seu Tomita, um grande joalheiro que fazia muitas peças de ouro com o apoio de várias oficinas. Eu fazia muitas peças de prata e surgiu a necessidade de ajudar a construir as peças em ouro para ele. Trabalhar com ouro era o ápice da profissão.

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Como foi a migração para a sua própria oficina?

Carlos: Quando eu estava nessa oficina, o dono dela acabou aceitando o convite do tio dele para ir para o garimpo na Guiana Francesa, na esperança de ganhar mais dinheiro e mais rápido. Foi aí que ele me convidou para ir com ele, mas eu não aceitei. Ele iria fechar a oficina e eu comecei a procurar outro lugar porque eu já mandava bem na bancada. Nesse momento, o seu Tomita fez uma proposta para mim e, aos meus 24 anos, eu assumi a oficina onde eu trabalhava, fiquei com a estrutura e com as despesas também, para continuar executando as peças dele. Uma grande responsabilidade. Me mantive fiel ao seu Tomita, que sempre me ajudou, e ganhei outros clientes também. Nunca deixei ele na mão, ele era a minha prioridade, mas eu assumia outros trabalhamos também, alguns deles em prata, que eu precisava esconder do seu Tomita que me incentiva a trabalhar somente com ouro para ganhar mais. Como eu estava sozinho, migrei para outras oficinas, com outros ourives, onde aprendi ainda mais, mas sempre tendo o seu Tomita como cliente. Nos anos 2000, depois que eu comprei a minha casa, decidi parar de pagar aluguel e montei a minha oficina em um espaço da minha casa. Até hoje, me descolo até os meus clientes e confecciono as peças em casa.

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 Como você vê o futuro da profissão de ourives?

Carlos: Não é que o ramo da joalheria vá acabar, essa é uma profissão que vem desde o começo do mundo, com os artesãos de joias. Acho que a gente pode se aliar à tecnologia, mas vai ficar mais difícil. A tendência é a automatização de muitos processos, fazendo que a joia artesanal fique cada vez mais rara. A joia pode perder o seu valor ainda mais, porque o consumidor também parou de valorizar esse tipo de trabalho, olhando apenas para o valor final. O preço dos metais e das gemas não ajuda nesse sentido. Mas sinto que paramos de olhar para a qualidade, para o que está por trás desse processo, para a procedência.

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Qual foi o material mais inusitado com o qual você trabalhou ultimamente?

Carlos: Já construí peças com cano de PVC, com pedras simples, como aquelas ardósias usadas em piso. Vejo como uma alternativa financeira, mas também como um modo diferente de você pensar, de ver a joia. Joia é transformar. Dependendo de quem faz a peça, você pode transformar um tijolo, lapidá-lo como uma pedra preciosa. Para alguns pode não ser nada, para outras pode ser arte.

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 E qual é o diferencial, então, que a ourivesaria tradicional pode oferecer?

Carlos: Por trás da joia, desse trabalho, tem arte, tem paixão. O ourives também é psicólogo, precisamos interagir e entender o que o cliente quer para aquela peça exclusiva. É tão gostoso produzir uma joia e a pessoa dizer que a peça está maravilhosa... isso pra mim é uma satisfação. O dinheiro paga as contas, lógico, mas a satisfação do cliente usar sua peça, o sucesso que ela faz com outras pessoas, não tem preço. Ver essa criança nascer, como se diz, uma joia nascer do nada é mágico e isso está se perdendo. Uma joia feita em 3D, que você apenas manda para a fundição, não passou pelos processos que a enriquecem, o material não passou pelas mãos como um pão passa pelas mãos dos padeiros.

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O que pode ajudar a reverter esse cenário?

Carlos: O conhecimento. Tanto as escolas que ensinam a profissão de ourives, como os consumidores que deveriam procurar se informar sobre a origem do que consome. O mercado precisa investir e investir em educação. Tem tanta profissão bonita sendo esquecida e isso acontece no ramo da joalheria também. O computador não substituiu o humano, o toque, o contato com o material e como interpretar e tirar o melhor dele.

“A gente costuma dizer que você morre sem chegar a ser um bom ourives, porque você aprende mais a cada dia que passa, sempre tem algo para aprender.”

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IDEALIZAÇÃO: CHRISSIE BARBAN & JOSETTE BARBAN | DIREÇÃO DE ARTE: POHL | REDAÇÃO: LEANDRO BUARQUE