1101e205-6f71-4435-b7ad-fd12a4abc6d4.JPG

Comunicação e propósito na joalheria autoral

por marcelo

novaes

 

É inegável que situações limite transformam. De repente, o mundo foi tomado de surpresa por uma pandemia mundial.  Nesse cenário de desconforto, fomos convidados a investigações internas reveladoras. No rastro desse tsunami de emoções, a comunicação, em especial a digital, tem sido para muitos um alento de reconexão e equilíbrio.

Subitamente driblamos a angústia com experts compartilhando conteúdos em lives na internet, atualizamos conhecimento com aulas gratuitas online, renovamos o humor a partir do convívio em grupos virtuais. É neste ambiente de inteligência artificial que a joalheria, um setor tradicionalmente adaptado ao mundo físico, tem experimentado iniciativas inovadoras de leilões virtuais, salões de vendas online e exposições em live streaming conectando artistas e público mundo afora.


Em paralelo às lojas físicas que certamente voltarão remodeladas, o movimento digital incentiva uma reflexão honesta sobre o propósito e o reposicionamento do setor joalheiro. Se por um lado a joalheria caracteriza-se por atributos históricos de descrição, introspecção e seletiva conexão com o público, o desafio do isolamento social sinaliza um emocionante movimento de discussão, troca e união de empreendedores joalheiros, artistas, designers dos mais diferentes nichos e regiões, que, atentos à tecnologia digital, vem transformando crise em oportunidade.

Há cerca de 80 mil anos, o homem já usava conchas, raízes, sementes na confecção de amuletos para ressignificar seu lugar na natureza, para se conectar com o divino, para desvendar mistérios do universo. Hoje, o mergulho compulsivo numa epidemia mundial escancara problemáticas terrenas, expondo desafios de desigualdade, desequilíbrios coletivos, sociais, políticos.

 

Em meio à maturidade como resultado do mergulho em si mesmo, o artista joalheiro exercita o olhar crítico sobre a necessidade de comunicar a sua diversidade e assumir a sustentabilidade comercial da sua arte como negócio. Desta forma, o alinhamento de uma narrativa de comunicação de propósito da marca e da joia como voz de transformação refletem a ressonância com um mercado cada dia mais receptivo a formatos de consumo que transcendem ideais clássicos de propriedade, raridade, exclusão.

Se no final do século XX vivemos o boom da joalheria autoral como resultado da crise de identidade deflagrada pela internet globalizada, neste desafiador início de século XXI, uma pandemia motiva a consciência de uma nova perspectiva criativa, produtiva, comercial e cultural da joalheria. O profissional joalheiro, desafiado a sair do conforto da introspecção, é convidado a se relacionar com o público e desenvolver habilidades de comunicação sobre a sua história, essência e crenças. 

 

Longe de um exercício do ego, a generosidade do compartilhamento de experiências revela a densidade de universos criativos, educa e forma um público em busca de novos repertórios de valor. Mais do que o silêncio da contemplação, o legado da discussão coletiva no ambiente online lapida o olhar de quem enxerga além de preconceitos e nichos. Nessa nova viagem, evidenciamos a autoafirmação de artistas empreendedores que acreditam na construção de uma conexão poderosa entre a marca e o consumidor da assinatura autoral.


No cenário da joalheria como um ofício milenar aliado a perspectivas sem fronteiras da comunicação digital, o que parece relevante é a perpetuação da memória cultural de um povo onde a perenidade do “humano” toma o lugar do tradicional  “precioso”.  Neste caminho de desafios incertos, a joia ressurge como símbolo híbrido de arte, técnica e compromisso com o processo de evolução de um mundo mais tolerante, generoso e inclusivo.

Se inscreva para receber mais novidades
  • Instagram

IDEALIZAÇÃO: CHRISSIE BARBAN & JOSETTE BARBAN | DIREÇÃO DE ARTE: POHL | REDAÇÃO: LEANDRO BUARQUE