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Curadoria

de sí

por luiza hermeto

O percurso do artista se desenrola, naturalmente, de acordo com as direções de suas pesquisas, seus encontros, seus interesses e seu ponto de vista acerca de outro artista ou teoria. Ele escolhe quais informações vai carregar consigo na sua bagagem e, com isso, ele concebe seu próprio trabalho de maneira mais consistente.  Nesta definição, a expressão “levar consigo” me chama atenção pela ideia de aproximação do corpo, do contato físico tão próprio da joalheria que simboliza e afeta. Afeta porque se coloca entre você e o outro, como um novo ponto de referência e, se toca o corpo, me interessa. 

 

Acredito fortemente que o campo da joalheria se engrandece de forma colaborativa, com a construção coletiva de espaços e questionamentos, com as trocas e pesquisas compartilhadas, elucubrações, ócio e verborragia em conjunto. Falas, formas, meios, origens e gestos partilhados. Divulgar para conhecer, conhecer para cuidar. Pra mim, no final das contas, tudo volta pra lá, para o autocuidado.

Foi durante um curso ministrado por Maíra Gerstner, em 2017, que percebi a importância das referências para a construção da nossa caminhada e como o que vivemos e reverenciamos nos influencia, afeta e constitui. Percebi como até as músicas que eu ouvia quando jovem, repetidamente, faziam parte da modelagem do meu caráter, do meu eu, da minha noção de mundo. E isso parece simples mas, naquele momento, não era nada óbvio.

 

Maíra propunha no curso exercícios que traziam ideias de Lygia Clark, grande artista brasileira que me inspira muito. Suas pesquisas são investigações dos sentidos e da inserção do corpo na arte. Com seus “objetos relacionais” e sua conexão com a psicologia, Lygia explorava as possibilidades terapêuticas da arte sensorial, ideias que também moldam minha forma de pensar a joalheria.

 

O que admiramos, as memórias mais marcantes, os lugares percorridos, os livros lidos, as teorias confabuladas, o que vemos e o que sentimos fazem parte da nossa bagagem, da nossa caixa de memórias, que é cheia de caixinhas também. Temos que escolher e saber quais caixas abrir e fuçar. Por isso é importante conhecer o mundo e a si mesmo. Uma referência enriquece a conversa, abre portas e janelas, ao mesmo tempo que firma, enraíza.

IMAGEM LIS HADDAD

IMAGEM ESTRUTURA DO SELF 

LYGIA CLARK

IMAGEM LIS HADDAD

IMAGEM ESTRUTURA DO SELF 

LYGIA CLARK

Em 2013, após cursar design gráfico, me vi indecisa sobre qual caminho seguir já que a ideia de passar longos períodos em frente a uma tela de computador não me atraía nem um pouco. Um dia, numa conversa com um grande amigo, ele me disse: “acho que você vai gostar de fazer o que minha irmã faz”. A irmã dele era ninguém menos do que a querida artista Lis Haddad, que desde 2007 investiga as possibilidades do fazer e pensar o universo da joia.

 

Dois anos depois, tive a oportunidade de ser parte de uma das turmas de um laboratório criado e mediado pela Lis. Diversas gavetas se abriram a partir do compartilhamento do seu repertório. E digo gavetas porque me lembro, especificamente, da reflexão acerca do fato de que a joia permanece a maior parte do tempo guardada, perspectiva apresentada no livro Contemporary Jewelery in Perspective (2013).

 

Quando fiz o convite para que compartilhasse comigo suas referências, ela perguntou se poderiam ser indicações de outros campos. Particularmente acho isso maravilhoso, afinal as referências são completamente interdisciplinares e sem fronteiras. "Sou fascinada por pessoas sinestésicas e acho que ser tão observadora do mundo e dos detalhes sempre foi uma tentativa de experienciar esse cruzamento de sentidos, absorvo de tudo a todo instante", me contou Lis. E ela disse mais:

 

“Seria impossível ordenar nomes e obras por importância ou cronologia, infinitamente mais simples - e prazeroso - é falar sobre o que me emociona hoje: arquétipos, símbolos e ancestralidade, materiais vulneráveis, naturais e efêmeros, tons terrosos que envelhecem, o que reage à passagem do tempo, o que constitui o corpo, ossos, órgãos e ocos. Artistas contemporâneas brasileiras têm sido grandes atravessadoras do meu criar. Dentre elas Laura Gorsky, com seus círculos e experimentos com tintas naturais, Júlia Panadés, com seus desenhos que sempre me remetem a práticas ritualísticas, e Flávia Mielnik com seus recortes de corpos, suas cores vibrantes e seus animais tão cheios de vida. Para além de referências visuais, as composições de Philip Glass no piano me emocionam muito, fundamentais nas minhas realizações criativas. Por último, algo que me influencia enormemente é o Kinomichi: prática de contato que me permite investigar o corpo principalmente como detentor de saberes, além de suporte, composto por matéria diversa e sua arquitetura, geometria e organização.  As referências são múltiplas e infinitas. Mas é isso que a gente é, não?”

Em busca de referências, conheci Adriano Mol, professor da UEMG e joalheiro, que, além de um grande conhecedor de gemas,se tornou um importante parceiro, contribuindo para lapidar a minha visão e na concepção do espaço Criadouro Joalheria Colaborativa, em Belo Horizonte, com Fernanda Salomão. Ele me indicou o livro Jewelry: Concepts and Technology do Oppi Untracht (1982), “considerada por muitos a bíblia da joalheria, que debate seus campos que permanecem isolados e perdidos na separação da teoria e prática” como pontuou Adriano.

 

A importância do estudo teórico se mostra cada vez mais agora, quando refletimos que um objeto não deve ser materializado sem antes questionarmos qual o sentido para isso. Acredito que, pra saber pra onde vamos, é preciso saber de onde viemos e como nos construímos. E a construção da nossa própria história se embasa nas referências com as quais nos deparamos ao longo da vida. De uma forma ou de outra, o exterior nos toca e é interessante estarmos atentos para criarmos com cada vez mais solidez e relevância.

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IDEALIZAÇÃO: CHRISSIE BARBAN & JOSETTE BARBAN | DIREÇÃO DE ARTE: POHL | REDAÇÃO: LEANDRO BUARQUE