PERFORMANCE

Brazil Jewelry Week N2

por LÍGIA MORENO

Gestar é como engolir um furacão. É ter um vulcão na garganta e um mangue nas pernas. Antes de tudo isso, é pura abstração. Em algumas impera a vontade de romantizar, conversar com o grão, projetar cores e adivinhar o horóscopo. Respeito, mas não alcanço.


É preciso coragem para gestar e para escolher não gestar. No geral, é preciso coragem para ser uma mulher que escolhe.
Tentar pontuar cada fato jornalístico que vivenciamos com a presença deste vírus é tarefa árdua para o coração. Lembro-me de abrir os jornais como quem pisa em um campo minado e, em dado momento, fechar pela falta de fôlego, aos prantos. Ao mesmo tempo, compartilhávamos entre amigas os dilemas... Um pai que abandonou a família com um bebê de 20 dias, outra que perdeu o bico do seio por complicações da mastite, as que se divorciaram, as consultoras de amamentação completamente dopadas por suas ideologias precárias, as que recebem visitas invasivas.


Era, e ainda é, muita coisa ao mesmo tempo. É assombrosamente belo como tamanho terror e alegria podem conviver em nós. Parece que estamos em permanente estado de esquizofrenia com faíscas... Fagulhas de clareza.
Criar no meio disso tudo é um privilégio e uma necessidade, assim como fazer coco.


Desta vez, nada de performances longas, junto com outros corpos, naquele tempo expandido que se desenrola meio sem limite. Seria curto, silencioso e com ajuda do marido Caio e da babá Eva. Seria com ela nos braços. A trilha sonora dos sorrisinhos e gritinhos, as gargalhadas afoitas em conter um possível incêndio, enquanto ela ficava toda imaculada e curiosa para ver o que estávamos aprontando.
Meus olhos ardendo e lacrimejando pela fumaça. Eu me limpando rapidamente na pia para poder amamentar com segurança.
No caos, impera a urgência de elaborar uma linguagem apta a contornar tudo aquilo que se perde na ventania.

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IDEALIZAÇÃO: CHRISSIE BARBAN & JOSETTE BARBAN