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por BJW

Apesar dos seus mais de 60 anos, a joalheria contemporânea é um espaço da expressão artística ainda muito pouco compreendido. Miriam Mirna Korolkovas tem trabalhado há décadas para apresentar ao público a versão brasileira dessa arte, lapidando técnicas e conectando profissionais para construir uma linguagem nacional autêntica.

 

No ano passado, Miriam Mirna completou 50 anos de carreira e, em meio a diversos eventos no Brasil e fora dele, foi a curadora da primeira edição do Brazil Jewelry Week. Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo, conta com mestrado em Belas Artes pelo Pratt Institute, em Nova York, e doutorado em Arquitetura e Urbanismo pela USP. Com vasto repertório e uma coletânea de obras, é curadora do A CASA museu do objeto brasileiro e promove workshops em diversos países. 

 

Miriam Mirna coleciona feitos. Na década de 80, fundou a OFICINA Escola de Joalheria na cidade de São Paulo. Foi a primeira brasileira a realizar o mestrado em joalheria pelo Pratt Institute, revalidado na Escola de Comunicação e Artes da USP, e foi professora pesquisadora visitante na Universidade de Michigan, também nos Estados Unidos. Naquele país, realizou pesquisas inovadoras em diferentes técnicas e materiais como o nióbio, tântalo e o titânio.

 

Depois de tantas entrevistas concedidas ao longo da carreira, sobretudo em seu quinquagésimo aniversário de carreira, fizemos algumas perguntas sobre o desenvolvimento e o futuro dessa arte, olhando também para o período pós-pandemia em que vivemos.

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Como foi o desenvolvimento da joalheria
contemporânea 
no Brasil?

Miriam Mirna:  A joalheria contemporânea teve seu início no Brasil um pouco antes da década de 60 com duas pessoas basicamente, Amélia Toledo, de São Paulo, e Caio Mourão do, Rio de Janeiro. Ambos eram artistas, então, além de outras atividades, eles se enveredaram para a joalheria. Amélia trabalhava com metal e resina e, o Caio, com metal a partir da técnica de fundição em cera perdida. O grande marco da joalheria contemporânea no Brasil aconteceria na década de 60, com a Bienal de Arte de São Paulo. Caio Mourão participou como expositor e, em outra edição, como júri. Miriam Mamber recebeu a menção honrosa na Bienal de 1973, Kjeld Boesen também expôs e recebeu prêmios. Muitos outros artistas joalheiros também participaram das bienais. Na década de 70, Clementina Duarte, de Pernambuco, foi outra artista relevante que produziu muito. Naquela época, e desde o início, eram todos artistas independentes, não havia aula de joalheria com exceção da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo, com os professores Amélia Toledo, Nelson Alvim e Nicolas Vlavianos, todos eles também escultores. Na década de 80, eu fundei a escola chamada Oficina Escola de Joalheria. Na mesma ocasião, havia também a Escola Nova, fundada por Marco Duailibi e Ricardo Mattar. Ambas atuaram cerca de 10 anos, formando centenas de alunos. A partir daí, vieram muitos ateliês, a grande maioria situada entre São Paulo e Rio de Janeiro. O ensino da joalheira foi introduzido anos depois, nas faculdades de design. Eu mesma, por exemplo, cursei Desenho Industrial na FAU (USP). No Rio de Janeiro já havia a ESDI, que contava com uma equipe de excelentes professores. 

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O conceito da joia contemporânea foi bem aceito desde o início?

Miriam Mirna: No início, a joia contemporânea não foi bem compreendida no Brasil, pois utilizava outros materiais além do ouro e gemas. A joia era encarada apenas como um adorno de ouro e pedras preciosas. O que é relativo, uma vez que uma gema é gema, não existe uma classificação científica de preciosa ou não, somos nós que atribuímos esse valor. Quando o ouro foi ficando cada vez mais caro, a joalheria passou a utilizar a prata. E, paralelamente, os artistas contemporâneos passaram a introduzir outros materiais. A joalheria contemporânea começou assim, com a introdução de diversos materiais encontrados e admirados em nossa terra, através de expressões plásticas particulares.

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O que evoluiu nesse segmento?

Miriam Mirna:  Eu não usaria a palavra evolução. A joalheria hoje ainda tem um espaço enorme a ser ocupado. O Brasil tem um cordão umbilical muito forte com a Europa, algo difícil de cortar, um resquício do colonialismo sobretudo com Portugal. A transformação está na capacidade de enxergar que a joalheria não é um produto construído somente com ouro, prata e gemas. E nessa direção, alargamos o nosso olhar. As instituições de ensino no Brasil, ou seja, os cursos superiores, precisam dar mais espaço para o ensino da joalheria. Só pra lembrar, a pintura, a joalheria sempre existiram, desde o período Paleolítico. A joalheria é um tema importante para ser desvelado na história. Os por quês requerem muita dedicação em pesquisas.

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Você teve contato com a joalheria no Brasil?

Miriam Mirna: Quando eu comecei, não existia escola de joalheria, existiam ourives, então, os brasileiros interessados aprendiam com os ourives daqui, que eram pouco valorizados, viviam nos bastidores das grandes marcas de joias que surgiram no Brasil. Eu mesma aprendi joalheria nos Estados Unidos, durante o colégio. Eu fui para lá muito cedo, aos meus 16 anos, devido trabalho do meu pai. No colegial, eu tinha aulas de várias atividades, como cerâmica, pintura, gravura em metal, dança... Lá aprendi processos como fundição e esmaltação. De volta ao Brasil, com 18 anos, eu passava em frente a uma ourivesaria para pegar o ônibus para ir pra escola. Ali encontrei uma pessoa muita legal, um ourives de cerca de 30 anos que fazia as joias diretamente para  os clientes e que me ensinou muitas técnicas além das que eu já sabia. Quando entrei na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, encontrei maquinário para trabalhar com vários materiais, menos com metal, mas comecei a fazer joias em acrílico e madeira. Antes de concluir o curso, eu passei a dar aulas de joalheria em casa e, logo depois, no meu ateliê  que depois se transformou numa escola de joalheria, situada no Bexiga, atual bairro da Bela Vista. Na década de 80, me candidatei e ganhei uma bolsa  de estudos para os Estados Unidos. Acho que tinham poucos interessados, quase ninguém fazia isso aqui [risos]. Quando voltei ao Brasil, voltei fera. Muito experiente na coloração de metais por exemplo, prata e cobre, algo que ainda não se ensina muito hoje, e na utilização de nióbio e titânio, que aliás foi tema da minha tese, baseada em joias e esculturas. Expus minhas peças na galeria Oficina, que eu havia fundado, uma galeria de joias que funcionava junto com a minha escola.

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Como você definiria em algumas palavras a joalheria contemporânea feita hoje no Brasil e na América Latina?

Miriam Mirna: A América Latina mirou a Europa, porque que foi onde tudo começou. A arquitetura, o design de objetos e o design de joias nasceram, basicamente, nos países nórdicos, como Finlândia, Noruega, Suécia  e Dinamarca. Inclusive, os precursores desse tema que vieram ao Brasil eram europeus, como o russo Bobi Stepanenko, o dinamarquês Kjeld Boesen e alemães que começaram a expor e a ganhar reconhecimento. E esse movimento fez com que, à exceção da joalheria indígena e africana, a nossa joalheria fosse influenciada pelos movimentos europeus, e não pelos movimentos norte-americanos como muitos pensam. Acho que, mesmo hoje, não é possível definir a joalheria contemporânea do Brasil ou da América Latina, ela ainda está sendo definida. Existem artistas com uma linguagem forte e bem sedimentada, que justifica sua produção, como o próprio mexicano Jorge Manilla, embaixador do próximo Brazil Jewelry Week. Com a possibilidade de viajar e ter contato com mais informações do que tínhamos anos atrás, essa cultura vai se fortalecendo. A produção da arte joalheira na América Latina está se desenvolvendo muito bem, porque decidiu lançar um olhar para dentro de si mesma. E isso começou há pouco mais de 10 anos. E o maior movimento que aconteceu na América Latina foi na Argentina, com o  Simpósio en Construccion da Joalheria Contemporânea  Francisca Kweitel e Pamela de La Fuente, seguida pelo Chile e Colômbia. Muitos grupos de estudo, que realizam exposições e workshops, já são muito divulgados tais como o Joya Brava, do Chile, Joyeros Argentinos, assim como os brasileiros Broca, Rocas, Orbe e Occo. Acredito, porém, que esse movimento vai se sedimentar mais intensamente através de iniciativas como a Bienal da Argentina, que começou há alguns anos sob a direção de Laura Giusti e Paula Isola, e como o próprio Brazil Jewelry Week sob a liderança de Chrissie Barban.

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Como você vê o futuro desse mercado, sobretudo diante do final da pandemia?

Miriam Mirna: Muito provavelmente, o mercado da joalheria produzida pelas grandes indústrias joalheiras, elaborada a partir dos metais ditos preciosos, vai ficar mais restrito, mas contará sempre com o seu público. Outra parte da população deve consumir joias de imitação, mas outra, aquela mais interessada pela cultura artística, deve continuar a consumir a joalheria contemporânea, assim como acontece com mais intensidade na Europa, nos Estados Unidos, na Oceania e no Japão. De qualquer forma, com a segunda onda do coronavírus que já atinge países europeus, a economia deve ter uma baixa e não sabemos como o mercado vai reagir. O artista que sobrevive da arte deve enfrentar um grande desafio, talvez deva investir em peças inovadoras e utilizar materiais de custo mais acessível ao mesmo tempo.

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Como você avalia o movimento de extinção dos ourives e a nova geração de artistas e designers?

Miriam Mirna: A extinção dos ourives é uma realidade. Por isso, artistas e designers devem conhecer um pouco além das técnicas básicas, talvez nunca ao nível de um ourives, mas deveriam se esforçar. Assim como pintar exige técnica, o mesmo  deve acontecer para quem desenvolve uma joia, como executar uma peça, a preparação do metal, o modo de serrar e até como se sentar na bancada. Precisamos ter profissionais que se utilizam da  bancada, com formação de ourives. Fico triste com essa realidade, a nova geração precisa de uma formação básica, história da arte e do design, caso contrário, esses profissionais correm o risco de apenas se inspirar em obras de outros artistas e não inventam sua própria linguagem. Temos boas iniciativas no Brasil, como Atelier Mourão no Rio de Janeiro e o Núcleo escolas/laboratório em São Paulo que investem nesse tipo de ensino, valorizando a formação completa de um ourives, do conhecimento à prática. 

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Fazer joia mais sustentável é possível?

Miriam Mirna: O reaproveitamento de materiais, atribuir um novo significado aos materiais, é um caminho. Basta olhar o que o Brasil produz, madeira, palha, metais ferrosos, não ferrosos, refratários… A técnica é muito importante. Eu mesma guardo muitos materiais que encontro, madeiras que não existem mais e são descartadas em caçambas de lixo urbanas, móveis antigos, ossos de animais, sementes, cascas de frutas, casca de ovos. Hoje, estou trabalhando basicamente só com isso. Mas você precisa de um projeto, um excelente acabamento, porque é uma joia, que demanda tempo, técnica e dedicação. É o que diferencia a joia da bijuteria. Precisamos abrir os olhos e a mente ao ler, pesquisar, meditar.

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As máquinas podem ser aliadas ou são inimigas da joalheria?

Miriam Mirna: A máquinas vieram para nos auxiliar. Toda expressão artística se utiliza de uma técnica adequada para a construção da obra. Hoje, no século XXI, um leque de maquinário nos é ofertado. Por que não utilizá-lo? Avante!

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IDEALIZAÇÃO: CHRISSIE BARBAN & JOSETTE BARBAN | DIREÇÃO DE ARTE: POHL | REDAÇÃO: LEANDRO BUARQUE