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DILÚVIO

por ADRIANO TONI

Na Quarentena.  Da necessidade vem a invenção, e da restrição, a engenhosidade. A falta de materiais, estrutura ou técnica pode até desviar o processo, mas nunca impedir a obra. Um limite é só um modo de organizar. Expressão não é só expansão. O sussurro diz tanto quanto o grito.

 

O isolamento nos permitiu muitas reflexões sobre produção, consumo, impacto ambiental e tudo que orbita a joalheria. Diante de uma falta temporária de matéria-prima, buscamos alternativas à prata e voltamos a atenção para um metal com o qual nunca havíamos trabalhado: o bronze. Uma liga menos densa, que permite peças volumosas porém leves e confortáveis. Outra vantagem é a facilidade de encontrar ou reciclar essa matéria-prima, uma vez que seus principais componentes, como cobre e alumínio, são de uso comum. Com o tempo e uso, sua oxidação cria variações de texturas e cores, de um azul esverdeado a tons de marrom e preto.

Dentre essas técnicas, a fundição por cera perdida tem recebido mais atenção em nossa oficina. O exemplo mais antigo de seu emprego, um amuleto encontrado no Paquistão, data de 4000 a.C. Partindo de um bloco ou usando uma forma e cera derretida, cria-se o modelo a ser fundido, que é então revestido de gesso. Este material refratário suporta altas temperaturas e preenche perfeitamente todos os detalhes da peça. Essa mistura então vai ao forno, onde a cera é derretida, e o gesso endurece, deixando uma forma oca. Esse espaço vazio é então preenchido com metal derretido, copiando a escultura original.

 

Quando falo do meu trabalho, gosto sempre de citar um trecho do poema "O louco", de Khalil Gibran, que inspira a minha nova coleção desenvolvida nesse momento de isolamento:

 

"[...] Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!” Assim me tornei louco. E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós [...]".

Prata e ouro são materiais mais fáceis de trabalhar e manter. Maleáveis, com muitas possibilidades de acabamento, brilho e até de serem derretidos e reaproveitados. Essas vantagens e apelo estético e histórico justificam seu custo mais alto. Nossa proposta não é criar artigos de luxo. Nossos produtos são um meio de expressão, não de diferenciação social. O que faz de uma joia algo precioso é a intenção de quem presenteia e a memória de quem a veste, não só seu material. E isso é muito presente no meu trabalho.

 

Às marcas criadas pelo tempo e pelo uso de uma joia dá-se o nome de pátina. Amassados, arranhões, reações químicas. Tudo contribui para sua distinção e história. Encontramos diversos exemplos e grande fonte de inspiração na arqueologia. Na erosão de construções, na oxidação de estátuas, no desgaste de documentos e tecidos. A melhor maneira que encontramos de replicar esse aspecto de artefato, de relíquia, é replicar também os processos utilizados no passado.

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IDEALIZAÇÃO: CHRISSIE BARBAN & JOSETTE BARBAN | DIREÇÃO DE ARTE: POHL | REDAÇÃO: LEANDRO BUARQUE