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 MONTAÇÃO EM DESCONSTRUÇÃO PERMANENTE 

por Sarita Themonia

Vivência em montar resíduos sólidos, objetos descartados ou simplesmente o lixo sob o corpo, combinada com a experiência sensível das artes ao fortalecimento de comportamento autêntico, não sistematizado para a descolonização do meu corpo travesti, amazonida, umbandista e urbanizada periférica, resignifica os sentidos que carrego, entendendo a criação de fronteiras também como condicionantes que separam sentidos que podem se potencializar na mistura das diferenças.

Aprendi desde cedo com a natureza que tudo se transforma e nada é jogado fora, uma árvore que morre serve de abrigo para outras espécies além de adubo para a terra, entendendo a vida e a transformação como ciclos constantes e permanentes, o que para a sociedade de consumo a ideia de acumulo e descarte é inevitável, uma garrafa de água tem valor financeiro e fisiológico para quem consome, mas que ao cumprir a função de produto, tem sua forma destorcida e com isso é descartada, no entanto a garrafa amassada não deixa de existir, se tornando apenas um objeto desqualificado. O mesmo acontece nas relações humanas, pensamentos, sentimentos e até pessoas também passam a ser negligenciados e descartados, mas que mesmo inferiorizadas não deixamos de existir. 

Vivo a montação em Sarita Themonia  como determinante na descoisificação do meu corpo e com isso, do corpo como lugar de visibilidade de outros símbolos, temas e discursos, me liberta a custo de muito desconforto, exigindo diferentes movimentos e posturas, colocando o meu corpo em função da montação, dando suporte e evidencia ao lixo, provoco uma relação inevitável e imprevisível das pessoas com a minha arte, que ao testemunharem meu corpo montado, consequentemente resignifica as relações interpessoais e com o espaço.

"Pensamentos, sentimentos e até pessoas também passam a ser negligenciados e descartados, mas que mesmo inferiorizadas não deixamos de existir. "