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O QUE NÃO SE FALA, SE BORDA

por SOIS RABELO

Maria Luiza Teodoro Guimarães, Malu Teodoro, Maria Meteora, Malu… Mamãe, mãe… 

 

Quantos nomes podemos ter? Quantas podemos ser? Quantas mulheres habitam, se criam, evaporam, se transformam dentro de uma casa que chamamos corpo? Quantos lugares habitamos em nós? 

Corpo/mente/estado/ser/luz/sombras

 

Quando a mulher se torna mãe, posso dizer que algo muito louco acontece. Vivenciamos todas as estações de uma só vez. Partes de nós somem, adormecem, se transformam, nascem e morrem.

Tudo começa com o gestar. Ele sempre vem com o medo misturado com a sensação que algo diferente de tudo o que já vivemos irá acontecer. A mulher dá a luz a uma criança e nesse ato algo nela se apaga. Ela morre-nasce. 

 

Medo, dor, mudanças… CANSAÇO. 

Recomeçar. Refazer. Lutar. Se Re-Criar enquanto indivíduo alem do ser-mãe é um desafio e desabrochar que exige muita força, resiliência e perdão. Ser artista e mãe é como enfrentar um titã de sombras e pré-conceitos. Se desconstruir é necessário.

 

Sem tempo. Sem tempo. Sem tempo.

Toda a experiência de se fazer arte não serve mais na prática, a receita desanda. Re-criar. O primeiro passo é criar o imaterial. Temos que criar Tempo.

Malu Teodoro é uma criadora. Cria a cria e cria a si. Cria tempo e cria arte. 

 

Artista, fotografa, comunicadora, artesã, pesquisadora, profissional, estudante e o que mais ela desejar ser… assim ela é. 

Mulher no puerpério sente. Malu sentiu. Sentiu o que é ser mulher-mãe-parida. Viveu o luto da mulher que foi antes da barriga. A mulher-artista com tempo morreu. 

Seu olhar se transformou. Olfato, audição, paladar, fome e necessidades mudaram. Seu modo de sentir o mundo e a si mudou. Olhos na cria que cresce, aprende, desbrava e que muito necessita do tempo dessa mulher por alguns anos. Sem ela a cria mingua. 

Corre o tempo.

A cria miúda cresce, anda e fala. Malu pariu novamente. Desta vez uma série. Ela dá luz a uma sequencia de imagens bordadas com sua verdade. Forte, gritante, poéticas e necessárias. Malu expõe a violência intrafamiliar. 

Como meteoro, Malu brilha e deixa um rastro de reflexão em forma de imagens com bordados.

Como assim?

Nasceu uma criança, um ser fofo, frágil e que enche a família de expectativas, esperança e alegria… OK! E a mulher? Nasce uma nova mulher, ela se torna mãe, mas algo muito importante também morre, lembra? A mulher antes da barriga. Ainda confusa, essa mulher-mãe não sabe como explicar o furacão de sentimentos que estão ressaqueados com a tsunami hormonal e seu entorno é alheio a esse efeito forte, não sabem lidar com essa criatura  que sorri, chora, sente raiva e solidão. Muitas são cobradas, apagadas, excluídas, menosprezadas. Sofrem violências verbais, silenciosas e até físicas de seus familiares. 

Como meteoro, Malu brilha e deixa um rastro de reflexão em forma de imagens com bordados. Ela usa as frases de cobrança, julgamento, humilhação que ela vivenciou em seu momento mais delicado, o puerpério, tudo ficou exposto. 

A série “Você esta Morta” de Malu Teodoro materializa esse outro lado da maternidade. Chama o olhar, o questionamento e a reflexão para essa violência naturalizada dentro dos núcleos familiares. Um olhar cru, direto, imediato, forte e sensível… E ele o é assim, pois para uma mãe-solo-artista o Tempo é precioso demais, não há espaço para contemplação. O Tempo urge e a cria chama.

Apreciem o trabalho dessa artista que tenho a honra de acompanhar de perto. Ela não para, pois fazer arte é como respirar e adquirir sanidade quando se está atolada por demandas infantis de todos os tipos e tamanho de gente.