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por bJW

Bémok, que em Kayapó significa "O Salvador" é o representante de mais de 50 aldeias amazônicas. O cacique que também é terapeuta espiritual, é responsável pelas denúncias de várias entidades governamentais e ONGs acusadas de desviar milhões de dólares destinados aos indígenas por meio do Fundo Kayapó e Fundo Amazônico. Durante sua jornada, Bémok encontrou apoio nas relações com seus amigos kubén, que significa brancos em Kayapó. Através desses novos laços, pode desenvolver um novo discurso de paz, resultado de intensas mudanças internas do espírito guerreiro que foi moldado desde criança. Bémok lidera a campanha digital "União dos Povos Já", que se apoia no posicionamento de paz e resolução de conflitos para promover uma nova política de colaboração entre lideranças indígenas nas redes sociais contra as injustiças e invasões do território dos povos originários.

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Como você define a joalheria indígena?

A joia indígena é resistência simbólica e espiritual, possuindo valor além do estético. Sendo necessária para comunicar diferentes posições sociais, também são formas de conexão com o meio ambiente e espíritos ancestrais. Resistência que evidencia o poder de afirmação identitária e social, tanto para uma etnia indígena divergente, quanto ao branco que, de formas violentas, invadiram e ainda invadem as nossas terras.

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Como os índios enxergam
o ouro?


O ouro quieto, sem ser explorado, significa para nós uma maneira de estarmos seguros. Quando ele é arrancado do seu lugar, a gente não tem mais paz, então, protegemos para deixar ele seguro na terra. Nós não tiramos nada da natureza, nós já somos a própria natureza e tudo está conectado com a gente. Para fazer um ritual, por exemplo, eu farei com tudo da floresta - incluindo o ouro, diamante, cristais - sem precisar tocar neles, eu já estou na terra deles. Tira-los é coisa de kubē, do homem branco. Se são arrancados, nossos antepassados se enfurecem, gerando problemas. Por isso, manter a floresta significa paz de espírito e equilíbrio. A ganância nos leva a fazer coisas que não são do bem, deixam todos os guerreiros em alerta, porque todo dia temos que lidar com algum problema relacionado ao garimpo.

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Qual a relação do índio com os adornos?

Ser índio é isso, assim como um médico ou policial precisam do seu jaleco ou farda. Usar nossos artesanatos demonstra quem somos, sem precisar dizer o próprio nome. Essas joias não usadas todos os dias, mas em reuniões, rituais ou danças. As nossas pinturas e os adornos são algumas das mais essenciais formas de expressão da identidade cultural e tradição Mebêngôkre. As mulheres, por tradição, aprendem a fazer os adornos, mas não existe nenhum impedimento para que os homens o façam também, pois a tradição também é ensinada a nós. Porém as mulheres fazem as criações mais bonitas, trabalhos mais finos. 

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Quais são as principais matérias primas e como vocês as reunem?

Tudo que vem da natureza é valioso. Como por exemplo, as penas das araras que fazem o nosso kokar possuem valor inestimável, porque tudo tem um sentimento para fazer, tudo é feito com emoção. A missanga sucede a colonização do Brasil. Os invasores, na intenção de nos enganar através do que chamaram de escambo, ofertaram missangas para os parentes e em troca eles exploravam a terra, foi mais uma maneira deles escravizarem e explorarem, e hoje se tornou comum o seu uso, também porque as sementes que usávamos em todos os adornos foram ficando mais escassas com o desmatamento em decorrência das invasões. Usamos como matérias-primas formas e elementos da natureza, a princípio, como uma forma de proteção e camuflagem, envolvimento e identificação com a floresta em que nos encontramos e também como reverência e forma de honrar a natureza e agradecer. Simboliza uma comunhão entre o nós e nosso externo. Todos os elementos como cor, penas, grafismo, tipo de joia e o local utilizado são simbólicos e possuem significados essenciais.

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Como funciona o garimpo em terras indígenas?

Onde tem garimpo, tem morte. Hoje, a exploração de ouro é um dos nossos principais inimigos. Garimpeiros são invasores, eles desmatam para limpar o terreno, colocam produtos tóxicos nos rios para achar ouro, matando os peixes e todos os seres vivos que precisam daquela água para se nutrir, inclusive nós. Já teve parente meu que, por conta do mercúrio, veio a falecer de envenenamento. Além disso, tem o desmatamento. O tanto que exploram, cavam e jogam produtos químicos, a terra morre e não tem nem como reviver. E isso tudo só parece aumentar. Vemos e sentimos a falta de caça, da pesca e isso só piora. Também acontecem assassinatos de nossos parentes, muitos são contra o garimpo e lutam por isso contra os garimpeiros, de má índole, que usam armas. Esse ouro chega na mão de pessoas ricas e poderosas, como parte do sistema que coloca essas pessoas ruins para invadir com armas e explorar. Muitas vezes também achamos garimpos ilegais e já perdi muitos parentes que, na luta com tudo isso, perderam suas vidas.

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IDEALIZAÇÃO: CHRISSIE BARBAN & JOSETTE BARBAN | DIREÇÃO DE ARTE: POHL | REDAÇÃO: LEANDRO BUARQUE