Ana Passos BJW Valor 20210115.jpg

O VALOR

DA JOIA

POR ana passos

Os movimentos sociais que eclodiram em todo o mundo recentemente não nos permitem continuar evitando o contato com o que temos de humanamente comum e subjetivamente diverso. As joias podem ajudar a realizar certa decolonialidade de nossos sentidos e nossa mente. Não se trata de revisitar o passado ou reescrevê-lo, mas de construir o futuro, trazendo para o centro e para a luz a nossa relação com o corpo a partir de alguns aspectos históricos.

 

No Brasil, na primeira metade do século XX, tivemos uma série de políticas de estado que silenciaram e modelaram corpos. O triunfo desses projetos nacionais nos fizeram perder significados pessoais e culturais relevantes. Muitos outros foram criados.

Primitivo, simples, pobre, folclórico, preguiçoso, coisa de mulher, coisa de bicha - tudo isso acaba tirando a dignidade e, portanto, a identidade de grupos inteiros da população. Estereotipar comportamentos, sejam eles femininos, queer ou simplesmente que atendem à outra lógica de construção, está sempre presente e de forma opressora. Devemos trazer a presença e as ideias de todos os corpos para o centro da discussão.


Quando somos convidados a refletir coletivamente sobre joias contemporâneas, frequentemente
surge a questão do valor. Sabemos que isso significa examinar a formação do artista e a criação de um público.


Convido meus colegas joalheiros brasileiros e ibero-americanos a nos olharmos como uma possível centralidade em nosso trabalho. Não se trata de nacionalidade ou fronteiras. Trata-se de expandir nossa abrangência através do reconhecimento de nossa materialidade, nossa temporalidade e, acima de tudo, nossa incrível diversidade.

 

Um dos aspectos mais relevantes para a joalheria é a relação com o corpo. Nos últimos anos, essa relação se tornou mais complexa com os novos desdobramentos de questões de gênero, raça, desigualdades sociais, migrações e, atualmente, até de saúde pública. Em nosso mundo,tudo é um objeto. Tudo é mercadoria, mesmo saúde, educação e cultura.

 

A joalheria é um gesto ancestral. As joias podem ser ideias colocadas sobre o corpo e, ainda, ideias a respeito do corpo. Podem estar no reino fantástico da performatividade e viajar pela terra da representação. Podem ser uma presença. São reais e tem uma aura.

Também não se trata de um chamado às armas, pois cada um tem uma voz e uma batalha própria e isso deve ser respeitado a todo custo. É um convite para observar, compreender, testemunhar e estar vigilante, já que somos parte dos problemas e das soluções.


Há outro aspecto a ser destacado: a importância das ideias colocadas sobre o corpo. As joias têm a ver com contar e recontar histórias.

Temos de trabalhar com Poiesis, aproveitando cada brecha que se apresenta para espanto e encantamento, mas sem boas intenções condescendentes. O fascínio pela alteridade deve ser superado em nome do reconhecimento da humanidade comum a todos nós e da presença de uma diversidade de subjetividades tão necessária e bem-vinda entre nós.

 

É importante entender o solo, a terra e o lugar como pertencimento. Não como propriedades ou países, mas como o conceito de Mãe Terra, Gaia ou Pachamama. E na medida em que expandimos esse conceito, podemos até reavaliar nossa condição latino-americana. A herança e a ancestralidade, tanto em termos de existência pessoal como coletiva, podem nos ajudar a ficar de pé com dignidade e a andar por aí com propriedade.

Para terminar, podemos ser mais significativos e alcançar públicos mais amplos se abordarmos a complexidade em vez de evitá-la, através de uma joia que é um lugar onde materialidade e magia se encontram e se combinam para nos tornar mais próximos de quem devemos ser como indivíduos e como humanidade. Vamos abraçar todas as possibilidades e transformar joias em pura vida e fruição, com toda a alegria e sofrimento envolvido. Por que não explorarmos as muitas possibilidades em uma agência de todos nós?

Sejamos relevantes.


A Brazil Jewelry Week 2020 mostrou que nas mais incríveis circunstâncias um pouco de inventividade e bastante esforço coletivo geram momentos preciosos. Fomos capazes de nos reunir desde pontos distantes, de apreciar uma exposição extraordinária e de construir laços, sonhos e nexos.

Ana Passos é joalheira, pesquisadora e escritora. Em seu ateliê, dedica-se à criação, renovação e restauração de joias. É doutora em Educação, Arte e História da Cultura pela Mackenzie, com
uma tese sobre o significado da joia, e mestre em Memória Social e Documento pela UNIRIO. É autora dos livros As joias de Reny Golcman e Joias na Bahia dos séculos XVIII e XIX. Adora criar laços, sonhar e construir nexos. Planeja publicar mais livros.

www.anapassos.com

Se inscreva para receber mais novidades
  • Instagram

IDEALIZAÇÃO: CHRISSIE BARBAN & JOSETTE BARBAN