IMG_1553.JPG

Adornos e 
mitologia

por Ana calbucci

A declaração "What I love about jewellery is that it is totally unnecessarry" - ou "O que eu adoro nas joias é que elas são totalmente desnecessárias" na tradução livre - foi dita por Gijs Bakker, um dos maiores ícones da joalheria contemporânea. A intenção é claramente polemizar esta frase que nós, joalheiros, já ouvimos inúmeras vezes. Pessoalmente, ela soa como uma blasfêmia, como se quem fala algo assim vivesse em outro planeta ou pertencesse a outra raça e que absolutamente não seria humano.

 

A resposta imediata que me vem à cabeça é a imagem de uma noiva indiana, no dia do seu casamento, vestindo inúmeros adornos pelo corpo inteiro. Não são joias apenas para mostrar, serem vistas ou pelo prazer de usá-las, mas são um meio que transmite a essa mulher uma consciência divina ativando a divindade sobre ela. Naquele momento, ela é uma deusa. O ornamento opera a transformação do ser humano em deus e também o inverso, os deuses através das joias assumem sua face terrena.

 

A história do adorno está entrelaçada com a do homem desde os primórdios, é uma necessidade básica humana, funcionando como troféus, símbolos de pertencimento a uma sociedade, proteção dos fenômenos naturais e sobrenaturais. A utilização de adornos para ativar o sagrado pode ser visto em diferentes culturas ao redor do mundo, o ato de ornamentar se transforma e transcende o indivíduo e o coloca como pertencente ao plano sagrado, como veículo da mensagem divina.
 

Segundo Mircea Eliade, cientista das religiões romeno naturalizado norte-americano,  o mito conta uma história sagrada, ele relata acontecimentos ocorridos no tempo primordial, o tempo fabuloso do Princípio. O rito é o modo de colocar em ação um mito na vida dos homens por meio de cerimônias, danças e sacrifícios. Através do rito que se repete em incontáveis eras, uma história sagrada é relatada. 
 

A joalheria, o ornamento, passeia de mãos dadas com a mitologia, eles se entrelaçam em mitos cosmogônicos de diversas culturas. Como a teia da divindade védica Indra, pendurada sobre seu palácio no Monte Meru - o Axis do Mundo da Mitologia Védica -, esta teia tem uma joia multifacetada em cada vértice e cada joia estaria refletida em todas as outras joias, trazendo a mensagem de que todos os fenômenos estão intimamente ligados. Izanami e Izanagi, deuses mitológicos japoneses, criaram a Terra desenhando com uma lança decorada com joias. Com esta lança conectavam o céu e a terra e agitavam o mar formando as ilhas do Japão.

O universo mitológico da joalheria é riquíssimo e extremamente vasto. Quando nos elevamos a esta esfera, achamos que nosso ofício é ser mensageiros deste universo das coisas não visíveis, desta riqueza absoluta de símbolos e significados, por meio das quais esquecemos do teor de superficialidade com o qual a sociedade ocidental contemporânea tem tratado a joia, o adorno. E o teor de ignorância e machismo quando ela é identificada apenas como elemento pertencente ao universo da vaidade feminina.

Os adornos são ricos em mensagens e simbolismos e nos ajudam a ativar a nossa inteligência coletiva. Uma herança espiritual do desenvolvimento da humanidade, que nasce e renasce em todo o ser humano. Cumprindo os mesmo gesto e ações que fazemos a exemplo dos nossos antepassados, tanto faz nossa crença ou descrença, basta sermos humanos.

Penso nas culturas que mantiveram seus ritos e suas chaves de acesso ao sagrado. Aparentemente, a nossa cultura fracassou com seus mitos, mas isso como um ato cabal não existe, pois nós não conseguimos nos desligar por completo dessa conexão mitológica e milenar, ela está no nosso inconsciente coletivo. Basta olhar para filmes como Os Vingadores ou O Senhor dos Anéis, onde heróis se unem para proteger pedras e um anel mágico respectivamente.

Todo esse universo místico continua vivo em nós e em todos os nossos questionamentos. E por mais dessacralizada que seja nossa existência, de alguma forma estamos sempre tentando reingressar no tempo fundamental, o tempo com significado, aquele que existe fora do tempo corrido, o tempo do dia a dia. Acredito que, no ato de se adornar, esta conexão se acende e o que seria um simples vestir um colar ou colocar um anel, nos traz a imagem dos ritos e do pertencimento, fazendo retornar uma aura sagrada nestes gestos. E se estamos atrás de significâncias para a nossa existência terrena, talvez vestindo um colar de contas nos ajude a entender simbolicamente e gestualmente a mensagem sagrada.

Se inscreva para receber mais novidades
  • Instagram

IDEALIZAÇÃO: CHRISSIE BARBAN & JOSETTE BARBAN | DIREÇÃO DE ARTE: POHL | REDAÇÃO: LEANDRO BUARQUE